Uma crise de saúde mental, uma crise de propósito — e porque acredito que a resposta está nas coisas difíceis que escolhemos fazer.
Há uma crise silenciosa a acontecer à nossa volta.
Em 2025, 19,2% dos adolescentes entre os 12 e os 19 anos testaram positivo para depressão — o valor mais alto alguma vez registado. 42% da Geração Z luta com depressão e sentimentos de desesperança — quase o dobro dos adultos com mais de 25 anos. São números que não cabem numa estatística. São pessoas. Provavelmente pessoas que conheces.
E quando olho para estes números, não consigo deixar de me perguntar: porquê? O que mudou?
Vivemos na era da informação, da abundância, da conectividade. Nunca tivemos acesso a tanto. E no entanto, nunca nos sentimos tão perdidos.
A minha resposta — e aviso já que é apenas a minha — é que estamos a atravessar uma crise de propósito.
O propósito não nasce connosco
Há um mito perigoso que nos foi ensinado: o de que cada pessoa nasce com uma vocação, um talento único, um propósito que apenas tem de ser descoberto. Como se houvesse uma resposta certa algures dentro de nós, à espera de ser encontrada.
Não acredito nisso.
O Viktor Frankl, psiquiatra que sobreviveu aos campos de concentração nazis e escreveu Man's Search for Meaning, argumentou que o propósito não se encontra — constrói-se. Que o ser humano não tem um significado fixo, mas tem a capacidade de criar significado através das suas escolhas e das suas ações.
O propósito não é um destino. É um caminho. E os caminhos fazem-se caminhando — muitas vezes às cegas, muitas vezes com medo.

O que a maratona me ensinou sobre isso
Lembro-me do dia em que corri 5km pela primeira vez sem parar. Cheguei a casa sem fôlego, com as pernas a arder, com a certeza de que tinha encontrado o meu limite.
Um ano e três meses depois, atravessei a linha de chegada de uma maratona.
Não porque fosse talentoso. Não porque tivesse um propósito claro desde o início. Mas porque decidi, naquele dia dos 5km, que queria ver até onde conseguia ir. E fui adicionando um quilómetro de cada vez.
O mesmo aconteceu nas Jornadas de Marketing do ISCAP. Assumi a organização de um evento com mais de 200 pessoas sem ser a pessoa com mais experiência na equipa. Havia pessoas mais velhas, mais experientes, com mais contexto do que eu. Mas ninguém estava disposto a assumir a responsabilidade total. E eu assumi.
Não porque soubesse que ia correr bem. Mas porque percebi que a única forma de me tornar capaz era fazê-lo antes de estar pronto.
A identidade constrói-se nas coisas difíceis

Marco Aurélio, imperador romano e filósofo estoicista, escreveu nas suas Meditações que o obstáculo é o caminho. Não um desvio. Não um infortúnio. O caminho em si.
Os estoicistas acreditavam que o carácter não se declara — forja-se. Que a virtude não é um traço de personalidade com que se nasce, mas o resultado de escolhas repetidas em condições adversas. Cada vez que escolhes o difícil sobre o fácil, estás literalmente a construir quem és.
A autoconsciência não se desenvolve na zona de conforto. Desenvolve-se quando és colocado à prova.
É quando corres quando as pernas já não querem que descobres que és mais resiliente do que pensavas. É quando assumes uma liderança que te assusta que descobres que consegues tomar decisões sob pressão. É quando fazes a chamada difícil, escreves o artigo mesmo sem ter certezas, entras na competição sem garantias — que a tua identidade começa a tomar forma.
“Shoot for the stars and you'll at least land on the moon.”
Não se trata de garantir o sucesso. Trata-se de garantir o crescimento. Trata-se de teres uma história para contar — sobre quem eras antes e quem te tornaste depois.
Uma geração à procura de si própria
Acredito que grande parte da crise de saúde mental que vivemos hoje tem raízes nesta ausência de desafio real. Crescemos numa era em que tudo é mais fácil, mais rápido, mais acessível. E paradoxalmente, ficámos mais frágeis.
Não porque sejamos uma geração fraca. Mas porque ninguém nos disse que o desconforto é necessário. Que falhar é parte do processo. Que a dor de não conseguir é temporária, mas a identidade que constróis ao tentar — essa fica para sempre.
O propósito não está à espera de ti numa prateleira. Está na próxima coisa difícil que decides fazer.
Vai lá fazê-la.
