Cruzar a linha de chegada não foi o momento mais difícil. Foi o km 30, quando o corpo pediu para parar e a mente teve de decidir.
Havia uma noite em que fiz 5km a correr sem parar pela primeira vez.
Lembro-me de chegar a casa sem fôlego, com as pernas a tremer um bocado, e de pensar: "Ok. Vou fazer uma maratona." Não sabia quando. Não sabia como. Não tinha nenhum plano. Só sabia que ia.
Podia parecer impulsivo. Talvez fosse. Mas havia qualquer coisa naqueles 5km que me disse que isto era apenas o começo de algo maior.
O início — quando toda a gente tem uma opinião
Quando comecei a falar sobre o projeto, as reações foram variadas. A minha família apoiou-me desde o primeiro momento — e isso fez toda a diferença. Há uma força enorme em ter pessoas que acreditam em ti antes de teres sequer resultados para mostrar.
Mas nem toda a gente reagiu assim.
Houve quem duvidasse. Quem dissesse, com a melhor das intenções — ou talvez não — que eu não seria capaz. Que 42km era demasiado. Que eu não tinha o perfil para isso. Que devia começar por algo mais realista.
Guardo essas conversas com carinho.
Não com rancor, genuinamente. Porque cada vez que alguém duvidava, eu ficava com mais vontade. Há uma frase que me acompanhou durante meses e que resume bem o que senti:
“They said it was impossible because they couldn't do it. They confused their limits with mine.”
Não há melhor combustível do que provar — a ti próprio, primeiro, e aos outros a seguir — que o impossível era só a perspetiva de quem não tentou.
O plano — 4 corridas por semana, semana após semana

Não há magia. Há processo.
O meu plano de treino era simples na estrutura, mas exigente na execução: quatro corridas por semana, todas as semanas, durante meses.
Duas easy runs de 5 a 7km — o tipo de corrida em que ainda consegues falar sem engasgar. Uma sessão de intervalos, onde o objetivo era fazer as séries um pouco mais rápidas do que na semana anterior. E o famoso longão — a corrida longa de fim de semana, o verdadeiro termómetro da evolução.
Cada sábado era um desafio maior do que o anterior. A regra era simples: mais 3km do que o longão da semana passada. Saí para correr 10km, depois 13, depois 16, depois 19... até ao ponto em que o longão mais longo antes da própria maratona foi de 36km.
Trinta e seis quilómetros num sábado de manhã. Sozinho. Com os pensamentos e as pernas.
Nas semanas de maior volume, ultrapassei os 60km semanais. Há qualquer coisa muito honesta em correr 60km numa semana — não há forma de fingir que treináste. O teu corpo sabe. As tuas pernas sabem.
Os altos, os baixos, e o que fica no meio
Seria bonito contar que foi tudo uma linha ascendente de motivação e progresso. Não foi.
Houve semanas em que não tinha vontade de calçar os sapatilhas. Dias em que o corpo doía mais do que devia. Manhãs em que saí à chuva porque era o único momento que tinha. Momentos em que questionei se fazia sentido.
É nesses momentos que o processo te forma. Não é nos dias em que está sol e te apetece correr — esses são os dias fáceis. É nos dias difíceis que constróis quem és.
Outra frase que ficou comigo, simples e direta:
“It never gets easier. You just get stronger.”
E é verdade. A maratona não ficou mais fácil. Eu é que fiquei mais forte.
O dia — km 30 e a conversa contigo próprio

A maratona em si é um capítulo à parte.
Os primeiros 20km são uma festa. Estás bem, o ritmo está bom, há gente à tua volta, há energia. Tens a sensação de que treinaste bem e que vai correr tudo bem.
E depois chega o km 30.

O km 30 é onde a maratona começa de verdade. É onde o corpo te diz que chegou ao limite do que conhece, e onde tens de decidir o que fazer com isso. Não é uma questão física nesse momento — é uma questão mental.
Cruzar a linha de chegada não foi o momento mais difícil. Foi o km 30, quando o corpo pediu para parar e a mente teve de decidir.
Decidi continuar.
O que fica

Quando cruzei a linha de chegada, o primeiro pensamento não foi de glória. Foi de gratidão.
À minha família, que esteve lá desde o primeiro treino mal calibrado de 5km. Às pessoas que duvidaram, que me deram o combustível certo. Ao processo, que me ensinou mais sobre consistência, humildade e resiliência do que qualquer livro.
Uma maratona não te torna especial. Não te torna superior a ninguém. Mas mostra-te — com uma clareza brutal e honesta — do que és capaz quando decides não parar.
E talvez seja isso o suficiente.
A próxima? Ainda não sei quando. Mas o "se" já desapareceu há muito.
